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[EXAME] Por que as finanças fizeram o Manchester City ser banido na Europa

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O time de futebol inglês Manchester City está banido da Liga dos Campeões pelas próximas duas temporadas. A decisão veio nesta sexta-feira, 14, por parte da UEFA, órgão máximo do futebol europeu e que organiza os principais torneios intercontinentais europeus.

O City é acusado de descumprir as regras financeiras da UEFA, o chamado fair play financeiro”. Pela regulação do futebol europeu, um time de futebol não pode gastar mais do que arrecada — há exceção se o clube apresentar um prejuízo de no máximo 30 milhões de euros em média das últimas três temporadas. Mas o City teve um ano que teve 190 milhões de libras.

A UEFA entendeu que o City descumpriu as regras entre 2012 e 2016, ao alterar dados financeiros de seus patrocínios repassados à instituição. O City havia reportado à UEFA que sua receita vinha de seu patrocinador, a companhia aérea Etihad, dos Emirados Árabes Unidos. Mas, na prática, uma parte do dinheiro, concluiu a UEFA, vinha direto do sheik que é dono do clube, Mansour bin Zayed, da família real dos Emirados Árabes. De qualquer forma, a própria Etihad também é uma companhia estatal que pertence ao governo dos Emirados e, portanto, próxima à família do dono do City.

“A UEFA investiga, portanto, se o City fecharia patrocínio com outros patrocinadores em igual condição, ou se em razão da relação entre Eitihad e City, o patrocínio tem valores maiores ou mais inflados”, diz o advogado Eduardo Carlezzo, do escritório de advocacia especializado em esportes, Carlezzo Advogados.

Um fundo ligado ao sheik é dono do City desde 2008, quando começou a virada do clube, até então menor em relação aos concorrentes ingleses, rumo à elite do futebol europeu.

A base da investigação foi uma reportagem da revista alemã “Der Spiegel” em 2019, que mostrou que na temporada 2016/17, por exemplo, dos 67,5 milhões de libras de patrocínio do City, só 12% de fato veio de patrocínio da Etihad. O restante seriam, na prática, aportes diretos dos donos do clube.

Esse tipo de aporte direto no clube, fora da verba de patrocínio, é proibido pela UEFA porque, na prática, não prova que um time é capaz de se manter com seu próprio modelo de negócio. Na teoria, um time precisa provar que consegue se manter com receitas oriundas do esporte: patrocínios, direitos de televisão, bilheteria e outros segmentos. Do contrário, qualquer bilionário poderia comprar um time e aportar tanto dinheiro que o clube seria capaz de bater todos os rivais, minando a competição esportiva.

Para a punição, a UEFA argumenta ainda que o City não cooperou com as investigações. Em nota, o City afirmou que o time está “desapontado mas não surpreso” com a punição da UEFA. O clube afirma que vai apelar da decisão na Tribunal Arbitral do Esporte na Suíça. “O clube sempre antecipou a necessidade final de buscar um órgão e processo independentes para considerar o significativo conjunto de evidências que embasam sua posição”, disse.

Que outros clubes já foram punidos?

A punição do City é a mais rigorosa já aplicada pela UEFA desde que o fair play financeiro começou, em 2011. Mas não é a primeira. O próprio clube inglês já foi punido em 2014, com uma multa de 60 milhões de euros (da qual pagou só uma parte) e restrição a salários e transferências de jogadores. No mesmo ano, o francês PSG teve a mesma punição.

Ainda sobre o PSG, a compra do atacante brasileiro Neymar pelo clube em 2017 foi alvo de controvérsias na regra do fair play financeiro, mas o clube terminou sem ser punido. Argumentou-se que o PSG não teria dinheiro suficiente para arcar com os valores, e que o montante viria dos bilionários donos do clube. Atualmente, o clube é gerido pelo empresário Nasser Al-Khelaïfi, que é presidente do PSG e do Qatar Sports Investment, fundo ligado ao governo do Catar que comprou o time francês em 2011.

Em 2019, o italiano Milan fechou um acordo com a UEFA e ficou de fora da atual temporada 2019/20 da Liga dos Campeões. A punição original era de duas temporadas, mas o clube conseguiu amenizá-la. O Milan foi punido por gastar mais do que o que arrecadou nas temporadas entre 2015 e 2018, com gastos de mais de 200 milhões de euros nessas temporadas.

“Até hoje, as punições haviam sido mais amenas, um pouco para ‘inglês ver’, já que para clubes como PSG e City uma punição de 30 milhões de euros não faz falta”, diz Somoggi. O consultor acredita que houve uma grande pressão dos times europeus considerados tradicionais e que ainda têm modelo de negócio em que são capazes de ter receita orgânica, e não com um dono bilionário. “Com a punição ao City, caso ela de fato seja concretizada, cria-se um precedente de que a UEFA está atenta às transações fora da curva.”

De patinho feio a bilionário

A punição vem meses depois de o City atingir um valor de mercado histórico ao vender pouco mais de 10% de suas ações para o fundo americano Silver Lake, em novembro de 2019. O negócio elevou o valor do clube para 4,8 bilhões de dólares, segundo o jornal britânico Financial Times.

O City é um clube que historicamente viveu às margens do concorrente mais famoso, o Manchester United. Até que, em 2008, o clube foi comprado pelo fundo ligado ao sheik Mansour, por 240 milhões de libras.

Desde então, o faturamento cresceu seis vezes, para mais de 500 milhões de libras, colocando o clube entre os cinco com mais receitas no mundo. O City ainda gastou mais de 1,5 bilhão de euros em contratações e construiu um novo centro de treinamento com 16 campos oficiais. Conquistou também quatro campeonatos nacionais, o último deles em 2018. A Premier League, campeonato inglês, é a liga mais cara da Europa, e também uma das mais difíceis. O clube ainda não conquistou nenhum título da Liga dos Campeões.

O valor de mercado foi subindo junto com a performance do clube. Passou de cerca de 300 milhões de dólares em 2008 para 3 bilhões de dólares em 2015, quando um grupo chinês comprou 14% das ações, até chegar, agora a 4,8 bilhões.

Além de ser banido das competições da UEFA por dois anos, o City terá de pagar ainda uma multa de 30 milhões de euros. Ao não disputar a Liga dos Campeões, principal campeonato europeu (e um dos mais importantes do mundo), o City deve perder ainda até 75 milhões de euros em potenciais premiações que ganharia — o time é todos os anos um dos favoritos ao caneco europeu. Sem contar as perdas em direitos de televisão acarretadas de sua ausência na competição.

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