domingo 17 de Junho de 2007
Que desagradáveis são esses muçulmanos do Médio Oriente! Primeiro pedimos aos palestinos que adoptem a democracia, e então eles elegem o partido errado Hamas , e depois o Hamas ganha uma mini-guerra civil passando a dominar a Faixa de Gaza. E nós, ocidentais, ainda queremos negociar com o desacreditado presidente Mahmoud Abbas. Hoje, a Palestina e permita-me que mantenha as aspas tem dois primeiros-ministros. Bem-vindos ao Médio Oriente. Com quem negociaremos? A quem nos dirigiremos para convensar? É claro que deveríamos ter falado há meses com o Hamas. Mas não nos agradava este governo eleito democraticamente pelo povo palestiniano. Supúnhamos que iam votar na Fatah e nos seus corruptos dirigentes. Mas votaram no Hamas, que se recusa a reconhecer Israel ou acatar o totalmente desacreditado Acordo de Oslo.
Ninguém perguntou do nosso lado a que Israel se esperava que o Hamas fosse reconhecer. O Israel de 1948? O Israel das fronteiras posteriores a 1967? O Israel que construiu e continua a construir imensos assentamentos para judeus e só para judeus na terra árabe, engolindo até mais de 22% da Palestina, sobre a qual ainda há que negociar?
E, por isso, hoje se acredita que temos que falar com o nosso fiel polícia, o Sr. Abbas, o moderado (como o chamam a BBC, a CNN e Fox News) dirigente palestiniano, um homem que escreveu um livro de 600 páginas sobre Oslo sem mencionar nem uma só vez a palavra ocupação, referindo-se sempre à reorganização israelita como retirada, um dirigente no qual podemos confiar porque mantém relações e frequenta a Casa Branca e sempre diz o que nos convém. Os palestinianos não votaram no Hamas porque queriam uma república islâmica que é como se apresentará a sangrenta vitória do Hamas mas porque estavam cansados da corrupção da Fatah do Sr. Abbas e da natureza putrefacta da Autoridade Palestiniana (AP).
Recordo que há anos me convocaram para ir à casa de um funcionário da AP cujos muros tinham acabado de ser perfurados pelo projecto de um tanque israelita. E assim era. Mas o que me deixou atónito foram as torneiras revestidas em ouro de sua casa de banho. Essas torneiras ou qualquer um de seus múltiplos variantes foram o que custaram as eleições à Fatah. Os palestinianos queriam que a corrupção o câncer do mundo árabe se acabasse e por isso votaram no Hamas, e, a seguir, nós, os sempre tão sábios e tão bons ocidentais, decidimos sancioná-los e matá-los de fome e intimidá-los por exercer o seu voto livre. Chamaríamos a Palestina a integrar a União Europeia se houvessem sido suficientemente amáveis para votar nas pessoas certas?
No Médio Oriente é a mesma coisa. Apoiamos Hamid Karzai no Afeganistão, apesar de manter em seu governo senhores de guerra e barões da droga (e, a propósito, lamentamos muito todas essas mortes de civis afegãos inocentes de nossa guerra contra o terror nos confins da província de Helmand). Amamos Hosni Mubarak do Egipto, cujos torturadores ainda não eliminaram totalmente os políticos pertencentes aos Irmãos Muçulmanos, presos recentemente fora do Cairo, cuja presidência recebeu o especial apoio da Sra. sim, a senhora George W. Bush, e cuja sucessão passará quase com certeza ao seu filho, Gamal. Adoramos Muhammar Kadhafi, o enlouquecido ditador da Líbia, cujos homens-lobo assassinaram no estrangeiro os seus oponentes, cujo complot para assassinar o rei Abdullah da Arábia Saudita precedeu a recente visita de Tony Blair a Tripoli deveria recordar-se que o coronel Kadhafi foi chamado homem de estado por Jack Straw por ter abandonado as suas inexistentes ambições nucleares e cuja democracia é perfeitamente aceitável para nós porque está do nosso lado na guerra contra o terror. Sim, e amamos também a inconstitucional monarquia do rei Abdullah na Jordânia e de todos os príncipes e emires do Golfo, especialmente todos aqueles aos quais as nossas empresas de armamento pagam subornos tão escandalosos que até a Scotland Yard teve que parar as suas investigações por ordem do primeiro-ministro e, sim, posso compreender, é claro, porque não lhe agrada a cobertura que o The Independent faz sobre o que chama o Médio Oriente. Se os árabes e os iranianos apoiassem apenas os nossos reis, xás e príncipes, cujos filhos e filhas educam-se em Oxford e Harvard, quão fácil nos resultaria controlar o Médio Oriente.
Quanto a isso controle essa é a razão porque temos que oferecer, e retirar, os favores de nossos líderes. Agora que Gaza pertence ao Hamas, o que farão os nossos dirigentes eleitos? Terão os nossos pontífices da União Europeia, da ONU, de Washington e Moscou que dialogar com essa gente horrível e mal-agradecida (não tenham medo, que eles não lhes vão apertar a mão) ou terão que reconhecer a versão cisjordana da Palestina (nas boas mãos de Abbas) enquanto ignoram o eleito e militarmente vitorioso Hamas em Gaza?
É fácil lançar uma maldição sobre ambos. Mas assim acontece com todo o Médio Oriente. Se Bashar al-Asad não fosse presidente da Síria (somente o céu sabe qual seria a alternativa) ou se o maluco presidente Mahmoud Ahmadinejad não controlasse o Irão (ainda que actualmente não se saiba onde começa e onde termina um míssil nuclear). Se o Líbano fosse somente uma democracia de nossa própria safra, como os nossos pequenos quintais de relva, como a Bélgica ou Luxemburgo. Mas não, esses incómodos médio-orientais votam sempre na gente errada, apoiam a gente errada, amam a gente errada, não se comportam como nós, os civilizados ocidentais.
Assim, pois, o que é que vamos fazer? Apoiar que se volte a ocupar Gaza, talvez? Em todo caso, o que não faremos será criticar Israel. E continuaremos a reservar nossos afectos para reis, princesas e os pouco atractivos presidentes do Médio Oriente até que toda a zona no arrebente na cara e então diremos o mesmo que estamos dizendo já dos iraquianos: que não merecem o nosso sacrifício e o nosso amor. Como vamos lidar com um golpe de estado de um governo eleito?
Tens conhecimento e visão/ opinião sobre tais conflitos?
Hoje após a saida de Bush, Obama parece querer retomar os tratados de paz, o que não será uma lição facil.
Este post foi editado por Lia: 18 setembro 2009 - 10:52





Fechado







